maria bonita sem lampião

porque há uma hora em que todos os bares se fecham e as virtudes se negam

lisboa,

Se um dia estivesse frente a frente com Marília Gabriela – um objetivo de futuro próximo; e ela me encurralasse num desses bate bola: LISBOA!, eu teria na manga uma infinidade de rebotes: ladeira, cor, sol, Pessoa, comida, comida boa. A primeira, e mais certeira, no entanto, seria “intuitiva”. Explico. Não sou das melhores pessoas no quesito localização, mas também não sou das piores. Tenho uma boa memória, dessas entre a normal e a fotográfica, nem 8 e nem  80, algo no 63.  Acontece que tampouco estive na cidade, coisa de duas horas e trinta minutos, e já me sentia quase um heterônimo de Fernando Pessoa; Álvaro de Campos, caso possa escolher. Lisboa é intuitiva.

“ÀS ARMAS”, trecho do hino português, poderia, ao meu ver, ser  substituído pela máxima (ou pelo menos, a minha máxima) “AO SUL”. Caso você se perca pelas tantas ladeiras do Bairro Alto ou Alfama, siga ao sul.  Ao sul está o Tejo. E o Tejo é o lugar dos reencontros. Caso você se confunda, siga para o Tejo, se reencontre, e prossiga.

A questão não é exatamente essa. Embora essa seja uma parte importante da questão.  O segundo dia da viagem foi reservado para ir a Belém, o bairro. Como é sugerido por todos os gurus, um dia todo. Não seria difícil de chegar a pé, a Torre está na beira do Tejo, é só seguir o bendito, o lugar dos reencontros, como disse. Porém aí vem a parte boa de se viajar a baixo custo, ou como se diz em management, minha seara, low cost: escolher  por qual meio de transporte público se aproveita melhor a cidade. Quem não caça com City Tour, caça com elétrico. Para o trajeto da ida, escolhi o tram, 15E, ele segue em linha reta pela, erm, orla, e apenas se circuncentra quase perto do bairro. Na volta, escolhi o ônibus, 728, que faz um outro trajeto, subindo e descendo ladeiras, passando pelo Cais de Sodré e chegando a região central. Brilhante.

728. Entrei. Sentei. Sobe ladeira, desce ladeira. Entra turista, sai turista. O motorista não fala inglês, os turistas não falam português, me senti na interseção. Pela primeira vez, talvez. Casal de amigos se aproxima; digo, amigos entre eles, não meus amigos. Noto um cochicho, uma coisa ali, outra colá. Sigo na minha. Pá, tchum, motoca, que não calculou bem as curvas sinuosas e estreitas do Chiado, trava o autocarro. E abre-se aí a brecha para o papo, pois não há situação constrangedora que envolva ambas as partes que a intimidade não aflore.

“Peça uma curtida para tua página, faz-te famosa” “Shh calma” “Oi”, interpelei. Existe a necessidade de economia do pacote de dados, mas a curiosidade antropológica foi, é e sempre será maior. “Qual página?” – saquei o celular. “Meus cozinhados Margarete Almeida, procura aí, ela está a publicar diversas receitas, todos os dias”, “Meus cozinhados Margareth…”; não achei. “É Margarete, isso com E, na Angola é assim, tente” já tomando conta do meu teclado. “Achei, pronto”. E, num ato ousado, a Margarete procurou a si mesma e fez um convite de amizade, que foi aceito ali mesmo, entre um ponto e outro. “Agora curte a minha página” “Ok, manda” “Tailor cooking”, já na certeza que cometeria algum erro, dei para o próprio se achar. “Ok, feito”.

Vou confessar, sem muito orgulho, que tenho um jogo pessoal de testar a popularidade das nossas coisas. Em geral só pergunto sobre o Vasco da Gama, mas esse contexto, vá lá, pedia outra coisa. “Chefs brasileiros, conhecem? Atala, Rizzo?” “Não” “Talvez ouvi falar, mas não. Conheço acarajé e moqueca, serve? Gosto de cozinhar, é parecido com nossas raízes angolanas” “Ô se serve”

 

Praça do Comércio. Minha parada.

Tchau,

Tchau.

Prazer –  e lancei essa, sem saber se me ia fazer compreendida.

Hoje a Margarete preparou uma paelha à valenciana, tripas à moda do Porto e mousse de tiramisu, como consta um post no meu feed de notícias do facebook, às 15:46.

 

 

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miércoles, 2

A primeira vez que andei de metrô foi em Madrid. Prometi, numa dessas promessas pessoais, que não escreveria sobre a experiência de estar aqui – tanta gente com mais gabarito já o fez. Mas não confio nas minhas memórias. Também não confio em arquivos. Mas confio na nuvem – a de armazenagem.

Nunca visitei a capital do meu estado. Mas já conheço – e vivo, na capital d’outro país. São Januário é minha casa, ainda que eu nunca lá tenha estado. Maracanã, a minha grama, ainda que eu também não o conheça (nem o velho, tampouco o novo). Mas na minha história está, e ficará, o Bernabéu, o primeiro estádio em que pisei.

Foi um mês e alguns dias de primeiros. Primeiro vôo, primeira comida de vôo, primeira reclamação de comida de vôo. Primeiro frio, primeiro frio real, primeiras reclamações do frio real. Primeiras semanas sem algumas coisas, primeiras semanas com tantas outras coisas.  Primeiras semanas de quebras de laços, de fortalecimento de laços. De quebra de rotina, de criação de novas rotinas. Não preciso de muito para me sentir em casa. Estou em casa.

É como se fosse necessário ir ao 80 pra voltar ao 8. Ir longe pra ter certeza  que, sim, como diz Gil, eu quase não falo, quase não sei nada. E que isso não é ruim. Enquanto eu puder não me acostumar, talvez sempre escolha não me acostumar.

A minha linha é a verde. Sentido Casa de Campo. Ou Alameda de Osuna.

Venham comigo.

Ballet

Em algum dia dessa semana, depois de 11 horas de campus, gastei os últimos 20 minutos – entre a esquizofrenia e a cama, fazendo curativos por onde a sapatilha tinha deixado seus estragos. Calcanhar&mindinho, a dupla. É como se fossem as marcas no pé da Ana Botafogo, mas sem a parte de ser a primeira bailarina do Teatro Municipal do Rio. São marcas. Uma é dolorida, porém é aplaudida. É o bruto por trás da glória. A outra é só dolorida mesmo. Todos carregamos nossas marcas.

Depois de feito, pensava: porra, não faz sentido. Eu escolhi aquilo. Eu escolhi sofrer? Por que não coloquei um tênis? Botinha? Havaianas? Só meias?

A gente vive escolhendo sofrer. E nem sabe que está escolhendo, ou porquê está escolhendo. Vai ver, tamo aí, buscando uma glória que só cabe a Ana Botafogo. Fazemos escolhas – de vestuário a relações, que nos obrigam a passar o finzinho do dia, ou o resto da vida, fazendo reparos, renovando os curativos.

Veja bem, não é optar por não fazer, ou não viver. É optar por fazer e viver de forma confortável. Sim. Eu sei. Não temos como prever, mas eu poderia ter tirado as sapatilhas e ficado com os pés no chão, certo?

Na próxima, me lembrem, levo um band-aid

a poltroninha

Galeano, um mestre, tem uma frase que diz “El fútbol és lá única religión que no tiene ateos”. Não seria eu a herege a discordar. Não vou mentir. Gosto de tática. 4-1-4-1; 4-3-2-1; 4-1-2-3. Que bonito Simeone, no seu esquema – e algumas cotoveladas, neutralizar o BBC. A lógica em campo. A vitória da pranchetinha, o reinando do FM. Mas, veja bem, não consigo (e nem quero) me desfazer das mandingas. Futebol é, também, o fechar dos olhos, no suar frio, pensando mais rápido do que se possa falar “erra erra erra erra” quando o rival se aproxima do ataque. Quem viu, viu. Cena maravilhosa do também maravilhoso “FlaxFlu: 40 minutos antes do nada”. Na ocasião, tricolor fanático conta uma antiga mania: com as duas mãos por baixo do televisor, assim que o rival se aproximava, ele chacoalhava a tv, com o objetivo de desequilibrar o número 9. Até que um dia caiu que si. Um camarada, também tricolor, o interpelou mandando a real “Porra, mas tu já não parou pra pensar? Quando balança a tv, não desequilibra só os caras deles, mas os nossos também!”

(…)

A macumba é parte do show. Não a toa fui uuma das poucas a acreditar no Dante. Não por conhecer os alemães, mas pelo terreiro de sua vó. Porra, como aquilo não deu certo?

(…)

Não sei bem quando e nem como começou, mas eu tinha uma poltrona. Uma poltroninha. A minha poltroninha da sorte. Como você que tem seu casaco da sorte, seu lápis da sorte, seu chaveiro Fui Para Porto e Lembrei De Você da sorte. Vi de um tudo sentada lá. De Lampions League a Copa do Mundo, passando pelo charmoso™ carioca e pela catimbeira Libertadores. Título da CdB 2011? Estava lá. Já dei viradas históricas ao Liverpool. Goleadas para o Barcelona. Eu, claro. Fui responsável pela queda do Brasil contra a holanda em 2010. Não estava lá. 7×1? Havia levantado, no primeiro gol, para alcaçar a pipoca. Terminei sentada no meio fio em frente a casa, revirando as tampinhas de refrigerante entre os bloquetes. “Rafa, dá aquela força?” E lá eu ia para a poltrona. Gol do parmera. Já ajudei até o Nacional, o querido.

Hoje, quando cheguei em casa, ela já não estava mais lá. Conflito geracional. “Não casa mais com os móveis”, diziam. Porra, casar? Se ajunta, então. Mas não tem jeito. Agora é pau, é pedra, é o fim do caminho. É final de campeonato. Barro na camisa, sangue na testa, cotovelada toco y me voy.

Eu preciso acreditar no Christiano.

família

dia desses enquanto via uns trechos da novela das seis (7 vidas), me peguei refletindo sobre o quão frágil é o conceito de família – no sentido de ser abrangente, falar sobre tantas coisas, tantas pessoas, tantas realidades. na ocasião, as duas personagens principais (que descobriram ser irmãos por meio de um mesmo doador, identificado por um número, 271) conheciam mais 2 irmãos e agora eles já se somavam em 5. que podem ser muitos, não se sabe. e todos estão num processo de descoberta, de descobrir a família – caso essa exista, pois pode não existir, ainda que geneticamente semelhantes. família é sentir.

sou a favor da família. das famílias. de pai e mãe. de pais, de mães. só de um pai e só de uma mãe. de vós, de tios e sobrinhos. de irmãos por metade que são inteiros. de agregados. das famílias de um membro só (o sozinho, por opção, que se adapta e se encaixa em tantas outras famílias e que também recebe tantas outras famílias), dos colegas, amigos, irmãos que resolveram morar juntos no período da faculdade e passam por rotina, perrengues e prazeres de uma família. dos jovens casais. dos velhos casais.

não me é concebível que alguém se julgue o guardião (ou acima de algo) para metrificar, defender e padronizar todas essa variedade de relações. toda essa complexidade. quando tiver – caso tenha – filhos, quero, acima de tudo, que saibam que seu modo de vida é só mais um nesse emaranhado que somos. que não somos perenes, mas sim mutáveis. que somos vários, muitos, de todos os tipos possíveis e diferentes. mas iguais.

esferas

Vou confessar. Mesmo. Juro. Viver a vida, assim, vivida, em todas suas dimensões, me intriga. Explico: vivemos em esferas, certo? A global, política, social – das coisas como um todo, da independência de Kosovo à tendência inflacionária. A pessoal – da corridinha da vergonha pra pegar a lotação, do lembrete para a compra da ração dos gatos (e com o *, *de salmão), do relatório a ser entregue. E a pessoal, mais pessoal ainda – a que vem de dentro. E dentro fica. Eu não consigo, e não sei se deveria, mas alguém me disse que deveria e se alguém não me disse que deveria eu suponho por mim mesma que deveria separar essas esferas. Mas sou incapaz. Falho.

É como se eu (digo eu, mas entenda nós) transitasse entre os paralelos. Ainda tento entender, por exemplo, quem em sã consciência achou que seria possível realizar uma Copa do Mundo no Brasil e que continuaria tudo, assim, normal? Quem achou que seria possível ir ao banco, tirar boletos, pagar contas, fazer a compra da semana, assistir aulas, frequentar reuniões, fazer pautas, faxinar o banheiro, trocar as lâmpadas e verificar a água do radiador com tudo aquilo acontecendo? Durante um mês por todas as horas?

As coisas acontecem toda hora. E são muitas coisas. Em várias horas.

É um malabarismo. Faz assim, enquanto a água do café ferve (fora o pensamento comum de toda fervura da água, sobre o ponto de ebulição que diminui quando o açúcar é acrescentado) pensemos na conjuctura. De como sair à esquerda (ou à direita, a gosto do leitor). Enquanto esperamos na fila do xerox, reflitamos sobre a estrutura, sobre a superestrutura, sobre o desenvolvimentismo. E enquanto o professor não chega para aula, ou o chefe para reunião, rascunhemos sobre a crise representativa. Casaremos as esferas.

E a pessoal, mais pessoal ainda, deixemos pro domingo. Domingo à noite. Como tem de ser.

Baader Meinhof

Virabrequim. Ouvi pela primeira vez a palavra este ano – numa manhã de aula de legislação.  Não lembro exatamente o que é, nem pra quê serve. Passei as três aulas obrigatórias de mecânica justamente pensando o quão eu não queria saber nada de mecânica (ainda que seja mais um aparato de autonomia). Mas essa não é a questão. Definitivamente. A questão é que, logo ao chegar em casa, ouvi meu pai ao telefone comentando que o defeito era no “Virabrequim”. Noutro dia, lendo qualquer texto, havia uma comparação entre o formato-teórico de moléculas com um “Virabrequim”.  Porra. Eu jamais tinha ouvido essa palavra em 20 anos e agora, em menos de 24 horas da primeira vez, ela se repetiu mais duas?

Assistindo ao piloto de “A To Z”, descobri que essa sensação – efeito ou fenômeno? Tem até um nome específico “The Baader Meinhof Phenomenon” .  Numa primeira googlada, é bem complicado achar algo sobre, já que “Baader Meinhof” foi o nome de uma organização guerrilheira alemã de extrema-esquerda e, o fenômeno recebe este mesmo nome justamente porque quem o cunhou assim, o percebeu depois de ter ouvido sobre a organização alemã pela primeira vez.

De acordo com um texto da Pacific Standard,

“Stanford linguistics professor Arnold Zwicky coined the former term in 2006 to describe the syndrome in which a concept or thing you just found out about suddenly seems to crop up everywhere. It’s caused, he wrote, by two psychological processes. The first, selective attention, kicks in when you’re struck by a new word, thing, or idea; after that, you unconsciously keep an eye out for it, and as a result find it surprisingly often. The second process, confirmation bias, reassures you that each sighting is further proof of your impression that the thing has gained overnight omnipresence.”

 

Hoje li pela primeira vez sobre o efeito Baader Meinhof e, caso ocorra um Baader Meinhof, é provável que eu – e você – esbarremos com o termo Baader Meinhof por aí. Me conte.

Aqui, um rapaz gato falando sobre o tema.

sp;

ausência

tenho te escrito com calma

cartas em um caderno azul

arranco da espiral e não posto

por preguiça ou nem morta

tenho medo da espera

durante dias ou semanas um animal horrível

(espécia de raposa) vai me perseguir

por dentro, ou serei eu mesma

(um rato?) a me roer

enquanto a resposta não chega

perco muito tempo tentando

dar nomes aos bichos

que sobem a cortina do quarto

Alice San’tanna, Rabo de Baleia. Cosac Naify, 2013.

A cesta da firma

A cesta da firma

Quem é filho de proletário, sabe. Existe uma espécie de ansiedade, felicidade, curiosidade – ou um mistura disso tudo, quando se aproxima o último mês do ano. Ela é a novidade de cada ano. Embora aconteça todo ano. Entende?

Avisto, do alto do morro, no mesmo horário de sempre, meu pai descendo a ladeira. Não sei se é resultado dos 1.75 graus de miopia (e os óculos não utilizados) ou se ele está de fato um pouco inclinado à esquerda. Eu diria muito inclinado à esquerda. Alguns passos a mais, já um pouco mais próximo, posso entender: ela chegou. Meu pai, com um pouco de dificuldade, vem carregando a cesta de natal. No braço direito, a cesta em si – de papelão azul, ou vermelho, dependia do ano, com um projeto gráfico bem mal acabado, mas que já era muito se comparada a cor de burro quando foge das outras  11 do resto do ano – e do lado esquerdo (o que se inclinava), duas bolsas térmicas com frios (bolsas térmicas! De grátis! E com frios!) era das raras vezes que eu passava a gostar da firma.

O amor não durava muito. Não chegava a quinze meses e onze contos de réis. Era o tempo d’eu abrir eufórica a cesta e encontrar a lata de pêssegos em caldas. Mais uma vez. Ele. O pêssego. E em caldas. Destruindo qualquer e toda esperança que esse ano poderia ser diferente. Talvez hoje dê valor, não reclamo, aprecio. Mas havia duas sobremesas especialmente brochantes: a gelatina  e o pêssego em caldas, com leite condensado e creme de leite, respectivamente, para dar o “tcham”.  Eu só queria um pudimzinho.

Seguem as descobertas – embora, repito, sempre fossem as mesmas  – uma caixa de bombom, que mal durará três horas, um saquinho de bala em gomas, que separarei as jujubas verdes das vermelhas, um outro saquinho de nozes, que havia nenhuma utilidade – aliás mal sabíamos como quebrá-los – uma lata de atum, um vinho barato, mas que era bem vestido, valia de enfeite, ao menos, e, ah, meu prefeiro, o torrone. Não sei  de onde veio o Torrone, do que se trata o Torrone, mas sempre gostei do Torrone. Pegava rápido a única unidade que tinha e tratava de dar-lhe o devido fim. Sei que o torrone é vendido durante todo ano em qualquer mercado, mas nunca ousei comprar. Eu deveria ser fiel aquele torrone, da cesta, que esperava o ano todo (e, quem sabe, ele também não me esperasse?). Havia, ainda, alguns secos (como amendoim) e alguns queijos, que dávamos para tios que bebiam e poderiam utilizar como petiscos, atribuindo-lhes, portanto, um melhor uso do que em nossas mãos. (taí, um aprendizado, não há porquê ter posse de algo que será melhor na mão d’outro. Vale pra tudo)

Ajudava meu pai a terminar a ladeira, com todo cuidado, pois sabia que as bolsas térmicas (térmicas! E de graça!) poderiam ser reutilizadas num bate volta à praia.

As passas iam pro armário, onde ficavam o ano todo, quem sabe, até a próxima surpresa. Que era a novidade de cada ano. Embora acontecesse em cada ano.

2014 I

Confesso que gosto do conceito Deleuziano de esquerda – aquela que se deve partir do outro para chegar em si. Que seria, por supuesto, o contrário da ideia de partir gradativamente do seu CEP até chegar ao mundo. Pensei muito nisso enquanto justificava meus votos e demonstrava apoio aos meu candidatos.

As bandeiras pouco falam de mim, embora falem muito de mim. Se me entendem. A questão é que o problema é meu, é nosso, ainda que não esteja – em espaço – do meu lado. Eu tenho que me incomodar. Tenho que me sentir pessoalmente atacada, ainda que o ataque não tenha sido diretamente feito a mim.

Não sou de toda cética, tenho esperanças, por vezes acredito. E quando subverter essa lógica, e quando partir-se do outro para chegar em si, teremos uma nova forma de (discutir) fazer política.